segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Capítulo XVII, Capítulo XVIII e Capítulo XIX


The Fault In Our Stars

Certa manhã, um mês depois do retorno de Amsterdã, fui dirigindo até a casa dele. Seus pais me disseram que ele ainda estava dormindo lá embaixo, então bati na porta do porão antes de entrar e falei:
— Joe?
Encontrei-o balbuciando um idioma de sua própria criação. Tinha mijado na cama. Foi horrível. Não consegui nem olhar, sério. Só gritei pelos pais dele, que foram até lá embaixo, e subi as escadas enquanto o secavam e limpavam.
Quando voltei ao porão ele estava despertando gradualmente do efeito dos analgésicos para mais um dia excruciante. Arrumei os travesseiros para que pudéssemos jogar Counterinsurgence no colchão sem lençóis, mas ele estava tão cansado e desconcentrado que teve um desempenho ruim como o meu, e não conseguimos passar cinco minutos sem que ambos acabássemos morrendo. E também não eram mortes heroicas nem elaboradas. Só mortes negligentes.
Não falei nada para o Joe. Quase desejei que ele esquecesse que eu estava lá, acho, e esperava que não lembrasse que eu havia encontrado o garoto que eu amo mostrando sinais de demência deitado numa poça de seu próprio mijo. Fiquei meio que esperando que ele fosse olhar para mim e dizer: “Ah, Demetria. Como você chegou até aqui?”
Mas, infelizmente, ele lembrava.
— A cada minuto que passa estou desenvolvendo uma simpatia mais profunda pela palavra mortificado — ele disse, por fim.
— Eu já fiz xixi na cama, Joe, acredite. Não é nada demais.
— Você costumava — ele falou, e então suspirou profundamente — me chamar de Joseph.

* * *

— Sabe — ele disse depois de um tempo —, isso é coisa de criança, mas sempre imaginei que meu obituário sairia impresso em todos os jornais, que eu teria uma história digna de ser contada. Sempre suspeitei secretamente que eu fosse especial.
— Você é — falei.
— Você sabe o que eu quero dizer — ele retrucou.
Eu sabia o que ele queria dizer. Só não concordava com aquilo.
— Não estou nem aí se o New York Times vai redigir um obituário para mim. Só quero que seja você a escrever — falei. — Você diz que não é especial porque o mundo não sabe da sua existência, mas isso é um insulto à minha pessoa. Eu sei da sua existência.
— Não acho que eu vá sobreviver para escrever seu obituário — ele disse, em vez de pedir desculpas.
Fiquei muito frustrada.
— Só o que eu quero é ser o suficiente para você, mas nunca consigo. Isso aqui nunca chega a ser o suficiente para você. Mas é isso o que você tem. Você tem a mim, tem sua família e tem este mundo. Esta é a sua vida. Sinto muito se é uma droga. Mas você não vai ser o primeiro homem a pisar em Marte, não vai ser um astro da NBA e não vai caçar nazistas. Quer dizer, dê uma olhada em você, Joe. — Ele não disse nada. — Eu não quero dizer… — comecei.
— Ah, você quis dizer, sim — ele me interrompeu.
Comecei a me desculpar e ele disse:
— Não, foi mal. Você está certa. Vamos só jogar.
Então nós só jogamos.

Capítulo XVIII

Acordei com meu telefone tocando uma música do The Hectic Glow. A preferida do Joe. Aquilo significava que era ele quem estava me ligando… ou que alguém estava me ligando do celular dele. Dei uma olhada no relógio: 2h35 da manhã. Ele se foi, pensei enquanto tudo dentro de mim colapsava para uma singularidade.
Mal consegui dizer:
— Alô?
Esperei pelo som da voz devastada de um pai ou uma mãe.
— Demetria Lovato — o Joseph disse baixinho.
— Ai, graças a Deus é você. Oi. Oi, eu te amo.
— Demetria, estou no posto de gasolina. Tem alguma coisa errada. Você precisa me ajudar.
— O quê? Onde você está exatamente?
— Na esquina da Rua 86 com a Avenida Ditch. Eu fiz alguma besteira com o tubo de alimentação e não sei o que foi e…
— Vou ligar para uma ambulância — falei.
— Não não não não não, eles vão me levar para um hospital. Demetria, preste atenção. Não ligue para uma ambulância nem para os meus pais, eu nunca vou perdoar você, não faça isso, só venha aqui, por favor, e conserte a desgraça do meu tubo de alimentação. É só que, cara, isso é a maior estupidez. Não quero que meus pais saibam que saí. Por favor. Estou com o remédio aqui; só não consigo colocá-lo para dentro. Por favor. Ele estava chorando. Nunca o tinha ouvido chorar daquele jeito, exceto quando eu estava do lado de fora da casa dele antes de Amsterdã.
— Tá — falei. — Estou indo agora.
Removi o BiPAP e me conectei a um cilindro de oxigênio. Coloquei-o no carrinho, calcei um tênis que combinava com a calça de pijama de algodão cor-de-rosa e com a camiseta de malha do time de basquete da Universidade de Butler, que tinha sido do Joe. Peguei as chaves na gaveta da cozinha onde mamãe as guardava e escrevi um bilhete para o caso de os dois acordarem enquanto eu estivesse fora.

Fui ver o Joe.
É importante. Foi mal.
Com amor, D

Enquanto eu percorria de carro os poucos quilômetros até o posto de gasolina, despertei o suficiente para tentar imaginar por que o Joe tinha saído de casa no meio da noite. Talvez ele estivesse tendo alucinações, ou suas fantasias de martírio o tivessem derrotado.
Pisei fundo na Avenida Ditch passando por sinais de trânsito que piscavam no amarelo, indo rápido demais meio que para chegar logo e meio que na esperança de que um policial fosse me fazer encostar o carro e me dar um motivo para dizer a alguém que meu namorado moribundo estava empacado num posto de gasolina com um tubo de alimentação defeituoso. Mas nenhum policial apareceu para tomar aquela decisão por mim.

* * *

Só havia dois carros estacionados em frente à loja de conveniência do posto. Parei o meu ao lado do dele. Abri a porta. A luz interna se acendeu. O Joseph estava sentado no banco do motorista, coberto de vômito, as mãos pressionando a barriga no local onde o tubo de alimentação entrava.
— Oi — ele murmurou.
— Ai, meu Deus, Joseph, nós temos que ir para um hospital.
— Dê só uma olhada aqui, por favor.
Tive ânsia de vômito mas me inclinei a fim de checar o local acima do umbigo onde o tubo havia sido cirurgicamente instalado. A pele estava quente e muito vermelha.
— Joe, acho que infeccionou. Não vou conseguir resolver. Por que você está aqui? Por que não está em casa?
Ele vomitou, sem energia nem para virar o rosto e poupar seu colo.
— Ah, meu amor — falei.
— Eu queria comprar um maço de cigarros — ele balbuciou. — Perdi o meu. Ou então esconderam de mim. Não sei. Eles disseram que iam me comprar outro, mas eu quis… fazer isso sozinho. Fazer uma coisa simples sem ajuda. Ele estava olhando fixamente para a frente. Devagarinho, peguei meu celular e olhei para o teclado a fim de discar 911.
— Sinto muito — falei para ele. Nove-um-um, qual é a sua emergência?
— Oi, eu estou na esquina da Rua 86 com a Avenida Ditch e preciso de uma ambulância. O amor da minha vida está com um tubo de alimentação defeituoso.

* * *

Ele levantou os olhos para me olhar. Foi horrível. Eu mal conseguia encará-lo. O Joseph Jonas dos sorrisos tortos e dos cigarros apagados já era, substituído por uma criatura deploravelmente humilhada sentada ali abaixo de mim.
— É o fim. Não consigo nem mais não fumar.
Joe, eu te amo.
— Onde está a minha chance de ser o Peter Van Houten de alguém? — O Joe bateu sem força no volante, o carro buzinando enquanto ele chorava. Inclinou a cabeça para trás, olhando para cima. — Eu me odeio eu me odeio eu odeio isso eu odeio isso eu tenho nojo de mim eu odeio isso eu odeio isso eu odeio isso deixe eu morrer de uma vez.
De acordo com as convenções do gênero, o Joseph Jonas manteve o senso de humor até o fim, nem por um momento abandonou sua coragem, e seu espírito elevou-se como uma águia indomável até que o mundo em si não conseguiu conter sua alma repleta de júbilo.
Mas essa era a verdade: um garoto digno de pena que queria desesperadamente não ser digno de pena, gritava e chorava, sendo envenenado pelo tubo de alimentação infectado que o mantinha vivo, mas não o suficiente.
Limpei o queixo dele e segurei seu rosto nas minhas mãos, me ajoelhando a fim de poder ver seus olhos, que ainda tinham vida.
— Sinto muito. Queria que fosse como naquele filme, com os persas e os espartanos.
— Eu também — ele disse.
— Mas não é — falei.
— Eu sei — ele completou.
— Não tem nenhum cara do mal aqui.
— É.
— Nem o câncer é um bandido de verdade: o câncer só quer viver.
— É.
— Está tudo bem — falei para ele.
E pude ouvir as sirenes.
— Tudo bem — ele falou.
Estava perdendo a consciência.
— Joe, você tem que me prometer que não vai fazer mais isso. Eu compro cigarros para você, tá? — Ele me olhou. Seus olhos nadavam nas órbitas. — Você tem que me prometer.
Ele fez que sim com a cabeça, de leve, e então fechou os olhos, a cabeça pendendo do pescoço.
— Joe — falei. — Fique aqui comigo.
— Leia alguma coisa para mim — ele disse, enquanto a desgraça da ambulância passava direto por nós.
Então, enquanto eu esperava que eles dessem a volta e nos encontrassem, recitei o único poema que me veio à cabeça: “O Carrinho de Mão Vermelho”, de William Carlos Williams.

Tanta coisa depende
De um
Carrinho de mão
Vermelho
Esmaltado de água de
Chuva
Ao lado das galinhas
Brancas.

Williams era médico. Aquele parecia, para mim, um poema de médico. Tinha acabado, mas a ambulância ainda se afastava de nós, então fui compondo o poema.

* * *

E tanta coisa depende, falei para o Joseph, de um céu azul descortinado pelos galhos das árvores. Tanta coisa depende do tubo de alimentação transparente erupcionando das vísceras do garoto de lábios cianóticos. Tanta coisa depende desse observador do universo.
Só metade consciente, ele olhou para mim e murmurou:
— E você ainda diz que não escreve poesia. 

Capítulo XIX

Ele saiu do hospital e foi para casa alguns dias depois, final e irrevogavelmente esvaziado de suas ambições. Passou a precisar de mais remédios para acabar com a dor. Ele se mudou para o andar de cima permanentemente, para uma cama de hospital colocada perto da janela da sala de estar.
Aqueles foram dias de pijamas e barba por fazer, de murmúrios, de pedidos e do Joe agradecendo sem parar a todo mundo por tudo o que estavam fazendo por ele. Uma tarde, ele apontou vagamente para o cesto de roupa suja no canto do cômodo e me perguntou:
— O que é aquilo?
— O cesto de roupa suja?
— Não, ao lado dele.
— Não vejo nada ao lado dele.
— Meu último resquício de dignidade. É muito pequeno.

* * *

No dia seguinte, entrei sem bater. Eles não queriam mais que eu tocasse a campainha porque isso poderia acordar o Joe. As irmãs dele estavam lá com os maridos banqueiros e três crianças, todas meninos, que correram até mim e cantaram quem é você quem é você quem é você, correndo em círculos pelo hall de entrada como se a capacidade pulmonar fosse um recurso renovável. Eu já havia sido apresentada às irmãs, mas nunca às crianças ou aos pais delas.
— Meu nome é Demetria — falei.
— Joe tem namorada — um dos meninos disse.
— Eu sei que o Joe tem namorada — falei.
— Ela tem peito — um dos outros disse.
— Mesmo?
— Por que você carrega isso? — o primeiro perguntou, apontando para o carrinho do oxigênio.
— Ele me ajuda a respirar — respondi. — O Joe está acordado?
— Não, ele está dormindo.
— Ele está morrendo — falou outro.
— Ele está morrendo — confirmou o terceiro, repentinamente sério.
Tudo ficou em silêncio por alguns instantes e eu fiquei tentando imaginar o que deveria dizer, mas então um deles chutou o do lado e os três saíram de novo em disparada, um caindo por cima do outro num furacão que migrava para a cozinha.
Segui até a sala de estar para ver os pais do Joe e conheci os cunhados, Chris e Dave.
Eu não tinha chegado a conhecer as meias-irmãs direito, mas ambas me abraçaram mesmo assim. A Julie estava sentada na beira da cama, falando com um Joe adormecido exatamente com o mesmo tom de voz que alguém usaria para falar para uma criança que ela era adorável, dizendo:
— Ah, Joey Joey, nosso pequeno Joey Joey.
Nosso Joey? Elas tinham comprado ele?
— E aí, Joseph? — falei, tentando reproduzir um modelo de comportamento apropriado.
— Nosso belo Joey — disse a Martha, se inclinando para a frente, mais para perto dele.
Comecei a me perguntar se o Joe estava dormindo de verdade ou se tinha pressionado sem parar a bombinha que liberava os analgésicos a fim de evitar o Ataque das Irmãs Bem-intencionadas.

* * *

Ele acordou depois de um tempo e a primeira coisa que disse foi:
— Demetria.
O que, tenho de admitir, me deixou feliz, como se eu também fizesse parte da família dele, talvez.
— Lá fora — ele falou, baixinho. — Podemos ir?
Fomos todos: a mãe empurrando a cadeira de rodas, as irmãs, os cunhados, o pai, os sobrinhos e eu seguindo em procissão. O dia estava nublado, ainda, e quente, pois o verão havia chegado de vez. O Joe estava com uma camiseta de manga comprida azul-marinho e calça de moletom. Por algum motivo, sentia frio o tempo todo. Ele pediu água, então seu pai foi e buscou um copo cheio.
A Martha tentou puxar conversa com ele, ajoelhando-se a seu lado, dizendo:
— Você sempre teve olhos tão bonitos.
Ele assentiu com a cabeça, devagarinho.
Um dos maridos colocou um dos braços no ombro do Joe e falou:
— O que está achando desse ar puro?
O Joe deu de ombros.
— Você quer seus remédios? — a mãe dele perguntou, se juntando à roda de pessoas ajoelhadas à sua volta.
Dei um passo atrás, vendo os sobrinhos destruírem um canteiro de flores a caminho do pequeno gramado no quintal do Joe. Eles começaram imediatamente a brincar de jogar um ao outro no chão.
— Crianças! — a Julie gritou sem muita convicção. — Só espero — ela disse, se virando de novo para o Joe — que eles cresçam e sejam o tipo de jovem atencioso e inteligente que você se tornou.
Resisti à vontade de fingir que ia enfiar o dedo na garganta.
— Ele não é tão inteligente assim — falei para a Julie.
— Ela tem razão. É só que a maioria das pessoas muito bonitas é burra, por isso eu supero as expectativas.
— É isso aí. Ele é basicamente sensual — falei.
— A minha sensualidade pode meio que cegar — ele disse.
— Como de fato cegou o nosso amigo Nicholas — falei.
— Uma tragédia sem precedentes, aquela. Mas dá para eu conter a minha beleza mortal?
— Não, não dá.
— É minha sina, esse rosto lindo.
— Isso sem falar no seu corpo.
— Na moral, não vou nem começar a falar do meu corpo sexy. Você não ia querer me ver nu, Dave. Na verdade, me ver pelado foi o que fez a Demetria Lovato perder o ar — ele falou, fazendo um gesto com a cabeça na direção do cilindro de oxigênio.
— Tá, já chega — o pai do Joe disse, e então, do nada, me abraçou e beijou a minha cabeça, sussurrando:
Eu agradeço a Deus todos os dias por você existir, menina.
Bem, de qualquer jeito, aquele foi o último dia bom que passei com o Joe até o Último Dia Bom. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário